E isso é pra ser bolsa, ou cassino?
*Uma questão de milésimos*
* *
A bolsa de valores brasileira está próxima de se tornar um pregão de
alta velocidade -- onde cinco operações de compra ou venda são feitas
num piscar de olhos
Por Eduardo Salgado
No começo de 2010, a bolsa de valores brasileira deve entrar para o
grupo dos pregões mais velozes do mundo. Assim que a Comissão de Valores
Mobiliários, o órgão que faz o papel de xerife do mercado de capitais,
der sua aprovação, gestores de recursos poderão colocar seus servidores
a poucos metros do computador central da bolsa que processa os pedidos
de compra e venda. Com isso, terão condições de fazer negócios em prazos
de 10 milésimos de segundo -- será possível fechar cinco operações num
período de tempo equivalente a um piscar de olhos. Hoje, os gestores de
fundos conhecidos como "de alta frequência" colocam seus servidores
dentro de corretoras e, na melhor das hipóteses, fazem uma operação em
cerca de 40 milésimos de segundo. "As maiores bolsas do mundo já alugam
um espaço próximo ao seu computador porque há muitos investidores
interessados em lucrar com minúsculas diferenças de preço. Chegar antes
vale dinheiro", diz Edemir Pinto, presidente da BM&F Bovespa.
Essa alucinada corrida contra o tempo diz muito sobre o funcionamento do
mercado financeiro -- no mundo e, cada vez mais, no Brasil. Nele, o
conceito de velocidade vem sendo sistematicamente redefinido. Para fazer
um bom negócio é preciso fazê-lo antes de qualquer outro. Esperar por
algumas dezenas de milésimos de segundo para concluir uma transação é
esperar uma eternidade para algumas categorias de investidores. O
principal motivo dessa mudança foi o crescimento dos fundos que usam
softwares para analisar a trajetória de ações, títulos e moedas e que
disparam automaticamente ordens de compra e venda. A lógica da maioria
deles é completamente diferente da do investidor comum. Eles não querem
comprar uma ação e ficar com ela por meses ou anos. A estratégia dos
aplicadores de alta frequência é aproveitar distorções momentâneas de
preço de papéis e índices para comprá-los quando estão baratos e
vendê-los com lucro. Isso tudo num ritmo tresloucado, várias vezes por dia.
Com poder de análise e velocidade sobre-humana, as máquinas brigam entre
si para ver qual consegue identificar uma oportunidade de ganho mais
rapidamente. Mas o que tudo isso significa para o investidor comum? Para
quem aplica em ações pensando no longo prazo, os efeitos são positivos.
Diz Daniel Mendonça de Barros, sócio na corretora Link, de São Paulo:
"Como compram e vendem continuamente, esses fundos dão mais liquidez ao
mercado -- há compradores e vendedores para as ações mesmo em momentos
de grande nervosismo nos pregões". Para os investidores que operam
várias vezes ao dia -- os day traders, na expressão em inglês usada no
Brasil --, as consequências são diferentes. Como tanto eles quanto os
gestores de alta frequência buscam a mesma coisa -- aproveitar
distorções momentâneas no preço das ações --, os day traders se tornam
competidores da segunda divisão quando confrontados com o novo aparato
tecnológico. "Um ser humano com a mesma estratégia de um software vai
perder sempre. É o arco e flecha contra a metralhadora", diz Raphael
Juan, executivo responsável por produtos da CMA, uma das líderes em
softwares de negociação eletrônica no mercado financeiro brasileiro.
Nos Estados Unidos e na Europa, as novas armas de fogo do mercado
financeiro são motivo de polêmica. Para alguns políticos britânicos, os
softwares teriam subvertido a lógica do mercado de capitais ao
transformar os pregões em videogame. Na visão desses críticos, os
investidores de bolsa deveriam cumprir apenas o papel de provedores de
capital para as empresas. Na mão contrária, os defensores dos softwares
argumentam que eles são importantes porque, como exploram as distorções
do mercado, tendem a diminuir a volatilidade dos pregões. Se uma ação
está caindo demais sem justificativa, eles compram -- prática que muitas
vezes suaviza as quedas. Outra questão levantada contra os gestores de
alta frequência é a da competição desleal. Nos Estados Unidos, parte
deles paga uma tarifa para ter acesso antecipado às ordens de compra e
venda de outros investidores -- o que permite ajustar as estratégias de
acordo com o mercado. Os executivos da BM&F Bovespa dizem que aqui essa
prática é proibida e que não haverá privilégio.
No Brasil, o segmento dos fundos com softwares ainda é incipiente --
estima-se que não chegue a duas dezenas. Na bolsa de futuros, em que
desde junho é possível alugar um espaço ao lado do computador central e
fazer operações em 10 milésimos de segundo, os investidores de alta
frequência respondem por 6% do volume diário. Nos Estados Unidos, o
percentual é superior a 50%. Na Europa, é 35%. "A entrada da bolsa de
valores brasileira no clube da alta velocidade deve tornar o mercado
local mais parecido com o americano e o europeu", diz Cícero Vieira,
diretor de operações e de tecnologia da informação da BM&F Bovespa. A
expectativa é que, em três anos, os investidores de alta frequência
respondam por 30% do mercado local. Para quem estiver interessado em
operar com uma metralhadora nas mãos, um aviso: o desenvolvimento de um
software competitivo custa mais de 2 milhões de reais. E economizar
nesse quesito pode ser mortal. "Não adianta disputar uma prova de
Fórmula 1 num Chevette", diz Marcos Duarte, sócio da gestora Polo
Capital, do Rio de Janeiro.













