12 maio 2013

Quem é Margot, pintora de Aquarelas?



As aquarelas de Margot,
um exercício de resiliência
Nascida em 1932 no bairro de Itaquera, filha de mãe luterana e pai católico (união sempre reprovada pela família paterna), aos cinco anos Margot teve que deixar o Brasil com seus pais e seu irmão de três anos, porque por recomendação médica, sua mãe com malária deveria habitar um lugar frio. Ignorando apelos de amigos e parentes, seu pai alemão decide levar toda a família à sua terra natal, Augsburgo, sul da Alemanha, em pleno inverno de 1937 e com a esposa grávida de Helga, que nasce logo após a chegada na Alemanha. Dois anos depois, Margot inicia sua vida escolar. Ao mesmo tempo começa a Segunda Guerra Mundial na Alemanha e – isto ela não sabe – seu futuro marido zarpou de Berlim há pouco com toda família, no último navio destino Brasil, evitando o envio a um campo de concentração.

Augsburgo não era alvo preferencial dos ataques das forças aliadas, situação que mudou drasticamente a partir de 1943. A cidade abrigava a indústria de aviões Messerschmitt. Assim, em fevereiro de 1944, a família de Margot sobrevive a uma semana de incêndios, resultado de um gigantesco bombardeio de quinze mil bombas lançadas por quase 2000 aviões americanos. Sem portas nem janelas e chamuscada pelo fogo, a casa de Margot foi uma das poucas que permaneceu de pé. Junto à multidão em fuga, a família recolhe roupas e bens essenciais.  Caminham entre brasas e escombros para o outro lado da cidade, onde o chefe do partido os aguardava. Seu pai era membro do Partido Nacional Socialista.

Os frequentes bombardeios pesam na decisão da família buscar refúgio em chácaras às margens da cidade, pertencentes a parentes. A mãe de Margot decide dividir a família: encaminha cada um dos filhos a diferentes lugares.  Graças ao bom desempenho escolar, Margot, já com onze anos, é convidada a ficar numa escola adaptada em um hotel nos Alpes. Por dois anos perde contato com a família. Apenas quando completa treze anos consegue uma licença especial por influência do partido, para visitar seus pais.

Regressa de trem, sozinha e sob intensos bombardeios. Ataques são constantes nestes últimos meses de guerra. Na estação de Augsburgo seu pai a espera. Outras pessoas não tiveram a mesma sorte. Naquele dia, Margot presencia a poucos metros da estação, uma mulher ser alvejada e cair morta sobre a neve. Retornam a casa de bicicleta, sob um frio de 20 graus abaixo de zero.

São dias caóticos, preenchidos por sirenes de ataque aéreo, amigos próximos sendo presos, outros mortos ou desaparecidos e o constante sair da cama quente para se esconder de pijama em abrigos gelados.  Certa vez uma bomba incendiária perfura a parede da casa, por sorte não explode. 6 meses mais tarde, Margot assiste ao nascimento do caçula logo ao final da guerra. E pela janela de seu quarto assiste à chegada dos americanos na cidade. É a alegria das crianças - pela distribuição de balas e chicletes e o temor das mulheres – contrastado aos frequentes fuzilamentos de nazistas nas ruas.

Nos próximos seis anos de reconstrução da Alemanha, Margot e sua irmã passam boa parte do dia escondidas no sótão, sem escada ou aquecimento, pois seu pai temia que americanos perversos as encontrassem em uma das frequentes revistas. Roupas costuradas pela mãe para os americanos pagam o documento de "desnazificação" do pai. Margot, da janela do sótão, assiste sua mãe desmaiar quando americanos destroem toda horta ao fundo da casa. Aos 18, jovem e questionadora, Margot convence a família a retornar ao Brasil.

Já em São Paulo opta por apagar o seu passado. Consegue trabalho de secretária em uma empresa de importação, onde conhece Gregor, recém contratado. Pouco depois, aos 19 anos, Margot já está casada e grávida. A polêmica desta união supera de longe a de seus pais: o casal muda-se para Pelotas, Rio Grande do Sul pois apenas a mãe de Margot e o pai de Gregor aceitam o casamento de uma filha de nazistas com um judeu. Para o restante da família o tempo fechou. A distância, cartas constantes e o nascimento dos filhos dissipam 4 anos de desavenças entre as famílias e no final de 1958, Margot e Gregor e seus dois filhos retornam a São Paulo. Todos convivem pacificamente. Serão dez anos como dona de casa quando decide voltar a trabalhar de secretária e iniciar aulas de pintura em cerâmica com uma professora chinesa.

Quarenta anos depois dessa primeira experiência artística, viúva e aposentada, retoma o prazer pela arte. Começa a frequentar o curso da UNAT – Universidade Aberta da Terceira Idade do Instituto Mackenzie de São Paulo, onde tem aulas de aquarela. Técnica preferida de Margot, expressa de forma sutil e suave a delicadeza feminina, totalmente paradoxal à sua história de vida.
Conheça alguns dos trabalhos de Margot clicando aqui.

Viste a exposição das Aquarelas de Margot no PLATIBANDA - Rua Mourato Coelho 1365, Vila Madalena.
Abre diariamente a partir das 18h - sábados e domingo a partir das 12h.
Fecha à 1h da manhã.

A exposição vai até dia 21 de maio.

Nenhum comentário: