03 maio 2009

A Carta Post-Mortem que Silvio Santos nunca irá deixar


Minhas colegas de trabalho, meus telespectadores. Eu já fiz muito nessa vida. Até já dei selinho na Hebe Camargo. Já falei muita bobagem, deixei que uma menina de 5 anos puxasse minha peruca, enfim, não devo mais nada a ninguém. Agora que fui dessa para outra vida vou lhes dizer pela primeira vez o que achei de todos os programas que fiz: uma grande farsa. E o que mais me entristece é que boa parte desse povão precisou dessa farsa todos os domingos, e continua precisando, se não comigo, com meus imitadores, Faustão, Gugu e todos outros que preenchem uma grande parte do domingo com pura bobagem. Pobre aquele que precisa desse lixo ao invés de usar essas horas em algo produtivo, ler um livro, ir a um cinema, teatro, planejar o futuro com seus familiares, enfim, fazer algo a partir de si, e não ficar feito um bode grudado na tela de uma tevê vendo a multiplicação do nada. Achei que depois de mais de 20 anos fazendo a mesma coisa, programas como o meu não seriam mais necessários; a máscara cairia e seriam substituídos por documentários, programas culturais, enfim, um “upgrade”. Qual minha tristeza em perceber que o povo carece sedento dessas horas semanais, e que qualquer coisa mais estúpida que se invente ganha audiência. Essa menina, coitada, uma palhaça tão nova e todos já a admiram. Que eu seja palhaço, tudo bem. Já tenho idade e posso morrer palhaço. Mas esta jovem menina, com suas cretinices, mantém o Brasil inteiro ocupado falando sobre o que ela fez no último programa: que imensa falta de assunto! Meu Deus, eu era farsante mas achava que um dia estes que me assistem iriam perceber isso e se cansariam desse tipo de programa tipo Gugu Faustão, eu e companhia. Morro decepcionado. Esse meu povo não aprendeu nada nesses 20 e tantos anos. Não se educou em nada. Não ampliou seus horizontes. Continua precisando uma dose cavalar de bobagem para durar toda a semana. Pobre da cultura, pobre da educação, pobre desse poder que ignora a carência desse povo, cada vez mais vivendo a fantasia de viver e não ter (nem querer ter) a mínima idéia da cor da realidade. Eu morri, mas acho que todos que nos assistem morreram bem antes de mim. Pelo menos em seus desejos, se não muito mais que nisso.

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